NEI Gentil Mathias

O Núcleo Educacional Infantil Gentil Mathias é uma escola localizada no bairro Ingleses, no norte da ilha. O edifício do Núcleo Estudantil Infantil (NEI) atendia inicialmente o ensino fundamental, entretanto, devido a alta demanda, foi transformado em uma creche, a qual recebe cerca de 400 crianças na faixa etária de 0 a 6 anos. Porém, sua infraestrutura  foi reestruturada minimamente para atender a essa faixa etária, devido a isso é inadequada, dispondo de poucos espaços que possibilitam a realização de atividades recreativas, principalmente seu ambiente externo que se encontra quase totalmente cimentado.

O espaço disponível na escola era pouco dinâmico e mal aproveitado, o que influenciava negativamente a apropriação da criança no espaço, nas brincadeiras e no aprendizado. A área externa do prédio era composta por um chão todo de cimento, duas caixas de areia, onde ficavam a maioria dos brinquedos, e uma quadra esportiva que era desproporcional ao tamanho das crianças, e raramente era utilizada para sua função original.

Havia pouca vegetação e, consequentemente, poucos espaços com sombra. O lugar foi minimamente adaptado para atender as necessidades imediatas do NEI, devido a isso, a realização de maiores adequações era urgente, já que as próprias professoras da escola, ao longo dos anos, faziam intervenções pequenas para tornar o ambiente escolar mais agradável. 

A fim de possibilitar a readequação desse local, a compreensão de como as crianças entendiam o espaço se mostrou essencial, levando em conta sua percepção sensorial e lúdica, tornando possível a criação de um ambiente estimulante e mais adequado, favorecendo o aprendizado em diversos sentidos.

NEI Gentil Mathias

Para isso, foi elaborada uma metodologia que viabilizasse a participação dos diversos grupos de pessoas envolvidas com o NEI Gentil Mathias, como os técnicos, pais e crianças. Ela contava com as seguintes etapas: Construção de um programa de necessidades através da observação de campo e diálogo com os professores; Elaboração e aplicação de uma dinâmica para que as crianças conseguissem expressar o que elas esperavam do espaço através de maquetes e desenhos; Pesquisa de soluções adequadas levando em conta as informações obtidas; E, por fim, a elaboração do projeto. 

A partir do primeiro contato com a escola, o grupo do AMA buscou uma aproximação da temática, construindo um embasamento teórico a fim de integrar os conhecimentos de arquitetura, a pesquisa bibliográfica e as experiências que a equipe teve com o espaço e seus usuários. O grupo contou com o auxílio da diretora do NDI da UFSC, Maria Raquel, que desenvolveu uma tese intitulada “A condição social do brincar na escola: o ponto de vista da criança”, que trata da importância do brincar e do ouvir a criança, questões que foram essenciais para o projeto. A diretora participou, inclusive, de uma oficina elaborada pelo grupo de projeto do NEI Gentil Mathias e do Colégio de Aplicação da UFSC na SemanARQ do segundo semestre de 2017, com o tema “Arquitetura na escala infantil: a participação da criança na concepção do espaço”. Com base nos diversos contatos com Maria Raquel, o grupo concluiu que era essencial que a criança participasse da concepção de espaço e de que a organização dele não deveria ser fixa, a fim de que todos os seus usuários tivessem a possibilidade de intervir nela, sem estabelecer hierarquia nos seus diferentes usos, principalmente entre crianças e adultos.

O período de construção de repertório acerca do tema demandou um certo tempo, mas foi determinante para que o grupo tivesse embasamento ao realizar as dinâmicas com as crianças.

Foram realizadas três dinâmicas para as turmas de 4, 5 e 6 anos. Na primeira turma, de 4 anos, foi pedido para que as crianças desenhassem o seu ambiente preferido na escola. Enquanto elas desenhavam, os membros do AMA conversaram com elas, a fim de compreender melhor seus desenhos, que foram bem abstratos. Diferentemente do esperado, a maioria das crianças mencionaram a sala de aula como ambiente preferido. Concluiu-se que elas sentiam-se mais confortáveis nas salas de aula do que no parque, provavelmente porque esse era o ambiente da escola que mais foi adaptado àquela faixa etária. Na turma de 5 anos foi pedido para que os alunos desenhassem em um papel pardo o que eles gostariam que existisse na escola. Surgiram desenhos figurativos e outros bem abstratos, mas, a partir do diálogo percebeu-se a relação das crianças com o parque e o que elas imaginavam para aquele espaço. Percebeu-se que elas estavam muito limitadas ao que já conheciam, muitas delas sugeriram brinquedos que já existiam na escola, em contrapartida, muitos desenhos retratavam elementos da natureza e mais de uma criança falou de forma direta que o parque precisava de cores. Na última dinâmica, realizada com as turmas de 6 anos, o grupo levou uma maquete da escola para que os alunos reproduzissem o que gostariam de ter naquele ambiente, utilizando tintas, massinhas de modelar e blocos de madeira. Apesar da experiência com a maquete ter sido interessante, ficou evidente a maior facilidade que as crianças têm de se expressar pelo desenho.

Os resultado obtidos foram levados para as professoras. Elas declararam que nunca haviam pensado em perguntar para as crianças o que achavam e queriam no espaço. Tal reflexão foi muito positiva pois, por mais que a convivência entre crianças e professoras fosse diária, o diálogo, que nem sempre se fazia presente, pôde revelar desejos e interpretações que não ficaram tão evidentes com a observação.

Dinâmicas e seus resultados

Já com as professoras e supervisoras, foram realizadas pequenas discussões para estabelecer algumas ideias, posteriormente representadas na planta baixa da escola, mostrando sugestões e apontando problemáticas no espaço do NEI Gentil Mathias. A partir das conversas, uma série de desejos específicos para a área externa ficaram evidentes. O principal incômodo era o piso, que além de acumular muita água, era muito áspero, machucando as crianças facilmente. 

Durante todo o processo do projeto notou-se uma grande vontade por parte das professoras em ver a escola adequada  às crianças, o que se refletia na forma de pequenas intervenções. Após as dinâmicas, elas formaram um grupo de mobilização para colocar em prática alguns dos itens do programa de necessidades, entre eles foi construído um pergolado e o chamado “Espaço Aventura” – popular entre os alunos mais velhos, onde foram colocados objetos como cordas de equilíbrio e brinquedos escaláveis.

Mobilização das professoras

Zoneamento

Desde então, as demandas passaram a se tornar muito mais específicas, e a possibilidade do  projeto se concretizar tornou-se mínima, principalmente pela falta de recursos financeiros por parte da escola. Portanto, o grupo percebeu que não poderia mais contribuir da forma que o NEI Gentil Mathias precisava, nem sequer atender às expectativas das professoras, que esperavam que o Ateliê conseguisse verba ou desse apoio financeiro para concretizar o projeto. Assim, notou-se que não havia mais sentido em continuar projetando, já que não haviam mais ganhos para nenhuma das partes.

Apesar do ocorrido, é necessário ressaltar que nem sempre o objetivo do processo é um projeto final, e sim capacitar os agentes e fomentar uma emancipação a fim de que consigam efetuar os objetivos por conta própria. Percebeu-se um grande avanço no que se refere a situação da escola, assim como uma importante troca de conhecimentos e experiências entre os membros do projeto e do NEI, aprendeu-se que é essencial olhar para a criança e compreender como ela se relaciona com o espaço na sua escala, e também descobriu-se como fazer isso.

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Estudantes: Franciel Silva, Geovana Machado, Laura Schumacher Corrêa, Luara Karina Taufe, Mariana Bueno, Rafaela de Oliveira, Venâncio Graboski Perin, Vitor Bitencourt Amarante.

Professor Orientador: Dr. Rodrigo Gonçalves dos Santos.