Panaia


A comunidade da Panaia, localizada no bairro Carianos, parte insular meio-leste de Florianópolis, é formada por uma mesma família que migrou para Florianópolis no processo de êxodo rural dos anos 60 buscando melhor qualidade de vida. Eles se instalaram no imóvel e terrenos desocupados da antiga Panair do Brasil, imóvel que se tornou propriedade da União Federal após a falência da companhia aérea, não suscetível portanto ao processo de usucapião.
Após 40 anos de ocupação, enfrentando dificuldades financeiras, preconceitos e até mesmo ameaças, eles construíram ali suas casas, suas memórias, criaram seus filhos e concretizaram suas relações sociais e de sustento. No ano de 2001, os moradores foram surpreendidos com uma ordem de despejo emitida pela União Federal. O evidente descaso e crueldade da situação mobilizou organizações sociais, entidades, religiosos e a própria comunidade em uma luta coletiva para não só reverter a situação, mas garantir às famílias o direito de fixar-se de forma definitiva e com dignidade no seu próprio território. Após inúmeras manifestações públicas, denúncias em veículos de comunicação e a intervenção do Ministério Público Estadual, o terreno foi cedido à Prefeitura Municipal com a condição de que ela urbanizasse a área, além de construir novas residências e regularizar a transferência das propriedades. Foi nesse momento de alívio e esperança que fomos convidados pelos moradores e seus parceiros, através do professor Lino Peres, para desenvolver o projeto urbanístico e habitacional da área. Sabendo das falhas do novo modelo implantado pela Secretaria Municipal de Saneamento e Habitação através do Programa Habitar Brasil na região da comunidade Chico Mendes, o AMA elaborou juntamente à comunidade um projeto alternativo ao da prefeitura com base no recém implantado Estatuto da Cidade.
Com muita dedicação, ao longo de três anos, desenvolvemos de forma participativa um projeto com estratégias de integração com o bairro e estímulo ao lazer e convivência, sempre ponderando os anseios coletivos e individuais. Nossa participação, porém, não se limitou à etapa técnica. Participamos de momentos íntimos e emocionantes como mutirões de construção e limpeza, cultos religiosos e eventos para arrecadação de fundos com o intuito de engajar os moradores ao comprometimento social e melhoria de sua autoestima. Nosso objetivo era usar o processo projetual como instrumento agregador, que pudesse alavancar um novo padrão de vida e comportamento, transformando cidadãos marginalizados em agentes de transformação social.
Todas essas atividades, assim como a negociação constante junto aos órgãos da prefeitura, ocorreu em conjunto com outros importantes atores, entre eles destacamos o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Energia Elétrica de Florianópolis – SINERGIA, a Paróquia Santa Rita de Cássia, entre outras pessoas com espírito de coletividade e responsabilidade social. Entre eles citamos a guerreira Julia Maris Latronico e o fantástico Milton Monguilhott – Mítico (in memoriam) que ficou registrado em nossos corações como referência de generosidade e integridade. Ao final do processo, em 2009, a prefeitura aprovou e executou o projeto urbanístico e o parcelamento do solo conforme o desenho proposto pelo AMA. As famílias receberam a concessão de uso de seus imóveis e a tranquilidade recorrente. Devido aos curtos prazos para aplicação dos recursos, o projeto das residências por sua vez, foi desenvolvido e executado pela prefeitura.

Antes/Depois